Remédio em estudo previne novo AVC sem aumentar risco de sangramento

Postado em: 07/05/2026

Remédio em estudo previne novo AVC sem aumentar risco de sangramento

Um dos maiores desafios da neurologia pode estar mais próximo de uma solução. Durante a International Stroke Conference 2026, realizada nos Estados Unidos, pesquisadores apresentaram os resultados de um estudo internacional que testou o asundexian, uma nova molécula capaz de prevenir um segundo acidente vascular cerebral (AVC) sem aumentar significativamente o risco de sangramento — uma das principais limitações das terapias atuais.

O estudo, chamado OCEANIC-STROKE, avaliou o medicamento em desenvolvimento pela Bayer e mostrou resultados promissores na prevenção secundária do AVC isquêmico.

Veja a seguir o que os pesquisadores descobriram e por que essa molécula vem chamando tanta atenção da comunidade científica. 

O que é o asundexian e por que ele desperta interesse

O asundexian pertence a uma nova classe de medicamentos anticoagulantes orais: os inibidores do fator XIa da coagulação

Diferentemente dos anticoagulantes tradicionais, que interferem em etapas centrais da coagulação e podem elevar o risco de sangramentos — inclusive hemorragias cerebrais —, o bloqueio do fator XIa atua de maneira mais seletiva. 

Na prática, isso significa reduzir a formação de coágulos perigosos, sem comprometer de forma importante os mecanismos naturais de controle do sangramento. 

Essa característica coloca o medicamento em posição estratégica na prevenção secundária do AVC isquêmico, ou seja, em pacientes que já sofreram um primeiro episódio e apresentam alto risco de recorrência. O tipo de AVC avaliado no estudo foi o AVCI não cardioembólico, causado pelo entupimento de artérias cerebrais. 

O estudo OCEANIC-STROKE: como a pesquisa foi realizada

O OCEANIC-STROKE é um ensaio clínico de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, que incluiu mais de 12 mil pacientes em diversos países.

Todos os participantes haviam sofrido um AVC isquêmico não cardioembólico ou um ataque isquêmico transitório (AIT) recente. Em outras palavras, o quadro neurológico ocorreu devido à obstrução de uma artéria cerebral.

Os voluntários receberam tratamento padrão com antiplaquetários — como a aspirina — associado ao asundexian ou ao placebo dentro de até 72 horas após o AVC. O Brasil também participou do estudo, com centros nacionais integrando essa ampla rede internacional de pesquisa clínica. 

O principal objetivo era verificar se a nova molécula conseguiria reduzir a ocorrência de um segundo AVC sem aumentar eventos hemorrágicos graves, especialmente sangramentos intracranianos.

Resultados que animaram a comunidade científica

Os dados apresentados chamaram atenção logo na primeira leitura. O uso do asundexian levou a uma redução significativa de 26% no risco de AVC isquêmico recorrente, em comparação ao tratamento convencional isolado. 

Além disso, o estudo mostrou que não houve aumento estatisticamente expressivo no risco de sangramento grave, incluindo hemorragia cerebral — um dos maiores receios associados às terapias antitrombóticas.

Esse equilíbrio entre eficácia e segurança foi apontado por especialistas como o principal diferencial da nova molécula em relação aos medicamentos atualmente disponíveis para prevenção do AVC. 

Posologia simples pode favorecer adesão ao tratamento

Outro ponto considerado positivo do asundexian é a posologia. No estudo, o medicamento foi administrado por via oral, na dose de 50 mg uma vez ao dia, sempre em associação ao tratamento padrão.  

Esquemas terapêuticos mais simples tendem a melhorar a adesão dos pacientes ao tratamento, especialmente em doenças cardiovasculares crônicas que exigem uso contínuo de medicação. 

O medicamento ainda não foi aprovado 

Apesar dos resultados promissores, o asundexian ainda não está aprovado para uso clínico. Nos Estados Unidos, a molécula recebeu designação de Fast Track pela Food and Drug Administration (FDA), mecanismo que pode acelerar a avaliação regulatória de terapias consideradas inovadoras e relevantes para a saúde pública. 

No Brasil, o medicamento ainda não foi submetido à análise da ANVISA. A expectativa é que, com a consolidação dos dados do OCEANIC-STROKE e de outros estudos em andamento, a Bayer avance com os pedidos de aprovação regulatória nos próximos anos.

Por que esse avanço pode ser tão importante

O AVC continua entre as principais causas de morte e incapacidade no mundo. Sobreviver ao primeiro evento não significa estar fora de perigo: o risco de recorrência permanece elevado, principalmente nos primeiros anos. 

Nesse cenário, uma terapia capaz de reduzir novos episódios sem ampliar o risco de sangramento pode representar uma mudança importante na forma como médicos e pacientes encaram a prevenção cardiovascular e neurológica.

Embora ainda sejam necessários novos passos antes da possível chegada do medicamento às farmácias, o asundexian reforça uma tendência cada vez mais forte da medicina moderna: desenvolver tratamentos mais eficazes, seguros e personalizados para prevenção do AVC.

Quando procurar avaliação neurológica

Sintomas como fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar, alteração súbita da visão, tontura intensa ou perda de equilíbrio devem ser avaliados imediatamente.

Em caso de dúvidas ou necessidade de acompanhamento especializado, agende uma avaliação com o Dr. Iago Navas, neurologista formado pela USP, com experiência em hospitais como Einstein, Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz.

Dr. Iago Navas Perissinotti
Neurologista e Médico Intensivista
Registro CRM-SP 182805 | RQE 105792 – 129572

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